Quando se instalou em Portugal, Brigitte Bless recebeu uma sugestão aparentemente simples: experimentar fazer chocolate. O incentivo surgiu através de uma jovem chocolatier da Filarmónica de Nova Iorque que, depois de trocar a música pelo chocolate, lhe deixou uma frase que acabaria por mudar o rumo da sua vida.
"É uma profissão muito difícil e você é demasiado velha."
"Longe de me desmotivar, aquelas palavras deram-me a determinação para provar exatamente o contrário", recorda Brigitte Bless.
Inscreveu-se de imediato numa academia de chocolate e iniciou um percurso que viria a transformar uma curiosidade numa verdadeira paixão - "Olhando para trás, sinto uma enorme gratidão por essa jovem. Sem ela, a Chocolate Bless talvez nunca tivesse existido."
O nome da marca resulta igualmente de uma história muito própria. Apesar de querer um nome português, foi aconselhada a optar por uma designação com sonoridade internacional. Assim nasceu Chocolate Bless, mantendo, no entanto, um elemento que considera essencial: o slogan "Uma onda de emoção", inspirado na Nazaré, onde nasceu o atelier.
"Na Nazaré existe uma onda que impressiona o mundo. Nós queremos criar outra: uma onda de emoção, através do chocolate."
Do cacau nasce uma viagem sensorial
Ao longo dos anos, a Chocolate Bless evoluiu para uma abordagem profundamente ligada à origem da matéria-prima.
Depois da formação inicial, Brigitte aproximou-se de uma das mais prestigiadas casas suíças dedicadas à transformação da fava de cacau em chocolate, reconhecida pelo rigor dos seus processos e pelo respeito pelos produtores.
Hoje, trabalha diretamente com pequenos e médios produtores de diferentes origens, privilegiando chocolates capazes de expressar toda a riqueza do terroir.
"Cada origem conta uma história diferente", explica.
Entre os exemplos que mais a entusiasmam está um produtor dos Camarões, cujos chocolates proporcionam "uma verdadeira viagem sensorial", ou um pequeno produtor do sul do Equador que cultiva o raro cacau Arriba (Criollo), variedade que representa apenas cerca de 4% da produção mundial.
Uma das suas criações mais emblemáticas utiliza 77% de cacau e substitui o açúcar pela mucilagem do próprio fruto do cacau, desidratada e incorporada na massa de chocolate.
"O resultado é um chocolate de uma frescura surpreendente, que proporciona uma experiência completamente diferente."
Cada fava conta uma história
Para Brigitte Bless, escolher um cacau vai muito além das características técnicas.
"Por detrás de cada fava existe uma família, um território, um saber-fazer e uma paixão imensa."
É precisamente por isso que privilegia pequenas plantações, conduzidas por produtores que preservam métodos tradicionais e produzem cacaus de elevada qualidade.
"Acredito profundamente que é também responsabilidade dos chocolatiers apoiar estes pequenos produtores."
Na sua visão, o chocolate deve ser encarado da mesma forma que um grande vinho: "Existe um terroir, existem diferentes variedades de cacau e cada colheita tem uma identidade própria."
E acrescenta uma das imagens mais marcantes da entrevista: "O cacau é um produto vivo. Tem personalidade, caráter, caprichos e até humores."
Grande parte do trabalho desenvolvido pela Chocolate Bless passa por ajudar o consumidor a descobrir um novo universo de sabores.
Brigitte começa sempre por conhecer os gostos de cada pessoa antes de sugerir uma prova.
"Muitas pessoas chegam convencidas de que não gostam de chocolate amargo. Na realidade, ainda não descobriram toda a diversidade que o cacau pode oferecer."
Ao explicar as diferenças entre variedades, os processos de fermentação, secagem ou torra, percebe que a perspetiva dos consumidores muda profundamente.
"O sabor de um chocolate não depende apenas da percentagem de cacau, mas de todo o trabalho realizado desde a plantação até à tablete."
Para além das provas comentadas, promove harmonizações com vinho, Vinho do Porto, whisky e outros destilados, demonstrando igualmente o enorme potencial do chocolate na gastronomia.
"Um chocolate negro pode transformar um molho de tomate, acompanhar um foie gras ou surpreender em pratos de mar. O chocolate é muito mais versátil do que imaginamos."
Quando abriu a Chocolate Bless, em outubro de 2019, predominavam as vendas de chocolate branco. Hoje, a realidade é completamente diferente.
"Com muita paciência, diálogo e inúmeras provas de chocolate, fui conquistando a confiança dos clientes."
Atualmente, o chocolate negro ocupa um lugar central na loja, reflexo da evolução do consumidor português.
"Existe em Portugal uma enorme vontade de aprender e descobrir o verdadeiro chocolate."
Na sua opinião, eventos como o Festival Internacional do Chocolate de Óbidos despertam essa curiosidade, mas acredita que o futuro passa também por experiências mais intimistas, como provas comentadas, conferências e encontros dedicados ao universo do cacau.
É, no entanto, nas gerações mais jovens que deposita maior esperança - "O que mais me entusiasma é observar as crianças e os jovens. Ao contrário do que muitos imaginam, escolhem frequentemente chocolates negros, fazem perguntas e querem aprender."
E conclui:
"É neles que vejo o futuro do chocolate em Portugal. São eles que irão construir uma nova cultura do chocolate, mais informada, mais consciente e mais saudável."
Brigitte Bless acredita que o futuro do setor passa pela colaboração entre profissionais e vê na Plataforma Nacional do Chocolate um espaço privilegiado para esse crescimento coletivo.
"Uma pessoa pode fazer a diferença, mas quando trabalhamos em equipa conseguimos ir muito mais longe."
Com vários projetos em desenvolvimento — alguns ainda em fase de maturação — acredita que a partilha de conhecimento, a valorização da qualidade e a promoção do chocolate português serão determinantes para afirmar Portugal como uma referência neste setor.
"Portugal sempre foi um país de grandes navegadores. Gostava que essa mesma capacidade de descobrir, inovar e levar o que fazemos além-fronteiras também se refletisse no setor do chocolate."
E deixa uma convicção que resume a sua visão: "Se conseguirmos trabalhar em conjunto, tenho a convicção de que o chocolate português poderá afirmar-se cada vez mais, não só em Portugal, mas também internacionalmente."





